Aprendo ensinando

Em maio do ano passado fui conhecer o CEU (Centro Educacional Unificado) inaugurado há poucos metros de onde nasci. CEU é um espaço onde se faz educação, esportes e artes, é escola mas também é um clube esportivo onde, do outro lado, salas recebem oficinas artísticas, e também uma grande biblioteca. Todas as culturas são bem vindas, cheguei e comecei a trabalhar aqui no início. Inaugurei o cineteatro com a minha peça “Loquaz Introvertido” e na mesma semana comecei a dar oficinas de poesia e sarau aqui.

Nunca pensei trabalhar tão perto de onde moro, durante anos acordei cedinho e atravessei a cidade para trabalhar em diferentes tarefas buscando conhecimento e ‘um lugar ao sol’. Agora desfruto das construções que fiz e faço para minha vida. O mundo dá voltas e eu gosto da ciranda.

Aqui no CEU Maria Beatriz Nascimento, carinhosamente chamado de CEU Taipas, realizo oficinas de poesia e saraus, nas tardes de segunda a sexta-feira. Muitas pessoas já passaram por aqui e até um livro foi lançado, uma antologia, contendo poesias de participantes das oficinas, crianças de todas as idades. Livro patrimônio da quebrada, disponível para leitura gratuitamente, basta ir até a biblioteca do CEU Taipas e pedir pra umas pessoas incríveis que trabalham aqui também. Se der a sorte de me encontrar neste ambiente agradabilíssimo, eu mesmo te mostro!

Além da antologia, outro livro inédito foi lançado graças a esse projeto: Poeta Arretada, da nordestina de Palmerina/PE, Marilene Maria Otávio da Silva, radicada na periferia de São Paulo desde o início dos anos 80.

Marilene escrevendo seu próximo livro. Foto: Diego Rbor

Seguimos em 2023 na construção de poesias. Marilene, que chegou aqui dizendo-se praticamente analfabeta, hoje ela mesma escreve e reescreve a segunda obra literária autoral, letra por letra, e se alegra todo santo dia com o universo sem fim da literatura e poesia brasileira.

O primeiro livro de Marilene foi registrado por ela aqui durante as aulas. Ensino cada pessoa a desenrolar a própria escrita e a própria lida, com isso aprendo coisas novas todos os dias a ponto de me manter pleno na máxima “só sei que nada sei” e assim me permitir vivenciar o presente:

“Minha história é verdadeira, conto com sabedoria, escrevo com minhas mãos e tudo que falo é verdade, não é mentira não. Já tomei banho de bica, bebi água de Cacimba na folha da bananeira, morei em casa de Barro, o chão era bem pelado e a luz era um lampião. Trabalhei muito na roça, numa grande plantação, plantava milho e feijão. Colhemos muitas mandiocas, corremos muito de cobra dentro de uma plantação, Já cortei a lenha por metro, já fiz muitos calos nas mãos, mas para nós era normal, hoje não seria não. A faculdade foi uma enxada onde aprendi a lição!”, conta Marilene na apresentação do primeiro livro.

Além de Marilene, outra grande guerreira está enriquecendo esses encontros, a Maria Ednalva Dantas, que veio de Olinda – PE, refugiada para São Paulo, no dia 20 de setembro de 1965. Ela contou que demorou 40 anos para retornar a sua cidade natal, pense na saudade.

Reflito no quanto São Paulo é fria e sorrateiramente nos torna pálidas e segregadas cansadas.

Mas Maria é faladora, vê graça nas situações e nas palavras. Ri, agitada, contando sobre suas aulas de hidroginástica. Numa dessas oficinas, trouxe seus álbuns de fotografias e apresentou uma parte importante do seu universo, suas irmãs. Maria se alegra com a liberdade conquistada após ficar viúva, apesar do amor declarado por seu marido, que conheceu ao chegar na cidade grande, ela sorri quando esboça saúde e vitalidade. Fica de uma perna só e ainda põe o joelho no queixo: “Minha mãe ‘se foi’ com 105 anos de vida”, diz Maria, admirada, no auge dos seus 80 anos de existência e resistências iluminadoras da sua saga pela felicidade.

Maria e Marilene durante oficina de poesia com
Diego Rbor

São as jóias raras destes encontros poéticos. Brinco sério ao dizer que quando eu crescer, quero ser abençoado com essa capacidade que elas têm, a habilidade de seguir o próprio coração.

Ficaremos juntes durante este 2023, até dezembro. Em breve venho contar mais novidades.

Maria, Diego e Marilene.
Foto: Lucca Theodoro

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Diego Rbor

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